Aumenta em nossos dias a fome de Deus. “Em cada coração humano, não obstante todos os problemas que existem, há a sede de Deus, e onde Deus desaparece, desaparece também o sol que dá luz e alegria”, afirmou o Santo Padre Bento XVI aos jovens italianos, a 1º de setembro de 2007. Uns O procuram com avidez e encontram o caminho à casa do Pai; outros, sem destino, continuam a ignorá-Lo. Observa-se também como elemento estranho o surgimento de certo misticismo que não deixa de indicar uma reação ao materialismo do mundo onde vivemos.
Somos um ser social. E essa aproximação com a divindade não se reduz a algo particular e privado, mas se manifesta ainda por um culto próprio. O homem o pratica, ao mesmo tempo, como indivíduo e membro de uma comunidade, pois assim é próprio da natureza humana.
No relacionamento criatura-Criador, presente em todos os povos, constata-se, desde o alvorecer da Humanidade, uma Doutrina, uma Moral e um Culto.
O valor desse vínculo que nos une ao Senhor se mede pela elevação e pureza de um corpo doutrinário, capaz de criar convicções que nos aperfeiçoem. É imprescindível a ressonância com as exigências da sã razão, pois esta é igualmente criação divina. As normas dos costumes devem dignificar a pessoa e suas relações com o próximo e na sociedade. Qualquer ato que fira a lei natural já denuncia sua origem falsa. A legislação original, escrita no coração dos homens, tendo o Eterno como autor, não pode ser contraditada por um ensinamento qualquer, supostamente revelado.
O ritual autêntico demonstra o sentido da palavra religião, “re-ligare” a Deus. Ele o favorece e o evidencia.
Diante dessas considerações, normalmente aceitas por todos, cristãos e não-cristãos, examinemos algumas atitudes vigentes em nosso meio. Correspondem aos requisitos acima enumerados? Certas práticas em voga atendem a esse padrão de Verdade?
Como o alvo da Religião é a aproximação do ser humano com a divindade, seu fim primordial não é a busca da saúde física ou mental, a solução de problemas para tornar mais agradável ou menos dura a existência.
Essa afirmação não exclui a reorganização de um mundo eivado de injustiça, consequência do pecado. Exige-se, isto sim, uma outra dimensão e uma hierarquia nos objetivos.
Evidentemente, o Senhor pode interferir de modo extraordinário, mas o simples bom senso nos diz que, ao criar leis que regem o universo, adotou a norma de respeitá-las.
Na relação da criatura com a fonte da Vida, deve haver uma Doutrina, uma Moral, um Culto, para orientá-la em uma direção acima de meras dificuldades passageiras. Quando se perde a perspectiva do eterno, substituída pela satisfação das necessidades temporais, somos vítimas de um engano. Este assume maior gravidade por ser fatal todo erro nessa matéria. Recordemos que o Redentor ao realizar um milagre, até mesmo os Santos ao atenderem as preces, sempre o fazem como meio para atingir a um fim transcendental. Suprimir essa dimensão é destruir a verdadeira concepção religiosa. Pobre o povo que confia nos estreitos limites do transitório suas aspirações espirituais.
Tornar-se religioso para obter proteção dos males terrenos, para ser imune às doenças, exercer atos de culto para alcançar vantagens materiais é reduzir o que há de mais elevado a um nível extremamente baixo. Portanto, a busca do êxito jamais constitui o objetivo primordial da Religião. Esta leva seus seguidores a dar de si e não à procura do bem-estar pessoal e egoísta aqui na terra, por vezes de maneira absurda com extravasamento do ódio.
Exorbita-se a importância do sagrado quando, nos assuntos seculares, se lhe empresta valia que excede seus limites e possibilidades. Assim age quem prefere remédios ditos milagrosos aos da ciência.
A falta de recursos financeiros não explica totalmente a ânsia dessa procura, pois há pessoas economicamente bem providas que, equivocadamente, atuam sob o efeito de uma concepção errônea do sacro.
Essa influência se estende às interpretações dos infortúnios que nos afligem, sejam doenças ou outros problemas.
O sentimento religioso é inato e em nossos dias vem crescendo também como uma reação ao materialismo moderno. Este fato, entretanto, deve ser acompanhado com a máxima atenção.
O respeito à liberdade de crença não inclui o descaso com aquilo que pode prejudicar o bem-estar social, um falso misticismo, desvinculado da ascética, da verdadeira prática religiosa. Esta aperfeiçoa o indivíduo, eleva a comunidade, educa um povo; o que ocorre em contrário faz retroagir o homem em seu longo caminhar.
Somente uma fidelidade à Palavra alimentada pela Fé, virtude e não mero sentimentalismo, far-nos-á permanecer no caminho que a Ele nos conduz.
Cardeal Eugenio de Araujo Sales Arcebispo Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro